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Acupuntura: Eficácia e Riscos

A acupuntura é provavelmente uma das “terapias alternativas” que gozam de maior popularidade no mundo. Seus clientes são persuadidos a pensar que a técnica possui sua eficácia comprovada, e as explicações para isso costumam envolver a estimulação da produção de neurotransmissores como a serotonina, a ação de opióides endógenos no cérebro e no corno dorsal da medula dorsal e o equilíbrio corporal.

É até provável que uma sessão de acupuntura estimule sensações de prazer, mas será que uma sessão de massagem ou até mesmo um bom descanso na cama acompanhado de uma boa música não resulte também na maior liberação de serotonina e nos efeitos supostamente atribuidos às agulhadas?

Seus proponentes definem detalhadamente uma série de pontos no corpo humano que se forem estimulados (não exclusivamente através de agulhas) podem beneficiar um paciente em tratamento de úlceras, gastrites e dores agudas. A Associação Médica Brasileira de Acupuntura chega a afirmar em seu site que UM único estudo foi capaz de provar que a acupuntura funciona. Entretanto, o panorama hoje é que a eficácia da acupuntura ainda carece muito de evidências e os testes empíricos realizados até agora não encontraram efeitos consistentes.

Carlos Orsi comentou há alguns meses atrás sobre um estudo recente (Enblom et al., 2011) que testou a eficácia da acupuntura  comparando os efeitos em três grupos de pacientes com náuseas devido ao tratamento com radioterapia: 1) no primeiro grupo, houve a aplicação de agulhas cortantes nos pontos do corpo indicados pela tradição oriental; 2) no segundo grupo, houve a aplicação de agulhas não cortantes e em pontos que não são indicados pela tradição oriental; 3) no terceiro grupo, os pacientes não fizeram acupuntura e apenas tomaram medicamentos indicados.

Os resultados foram os seguintes: 68% dos pacientes que só tomaram medicamentos tiveram náuseas, enquanto que 37% dos pacientes que fizeram a acupuntura tradicional tiveram náusea. Se comparamos apenas esses dois resultados, parece que a acupuntura realmente funciona, mas se comparamos os 37% dos pacientes no primeiro grupo com os 38% dos pacientes do segundo grupo que tiveram náuseas, ou seja, os que se submeteram à acupuntura com agulhas que não furavam a pele e que eram colocadas em pontos que não deveriam surtir qualquer efeito, então o efeito da acupuntura tradicional fica comprometido pois os dois tipos de acupuntura tiveram praticamente o mesmo efeito, não fazendo diferença se a agulha perfurava a pele nem aonde a agulha era colocada. Esse resultado corrobora a idéia de que, na melhor das hipóteses, a acupuntura não passa de agulhamento a seco (Ernst e Adrian, 2001).

Um resultado interessante encontrado no estudo foi o papel que a expectativa dos pacientes teve: 81% dos pacientes que nutriam a expectativa de ter náuseas passaram mal, enquanto que 50% dos pacientes que não tinham essa expectativa tiveram náusea. Esses dados indicam que talvez o papel da expectativa inicial do indivíduo seja muito mais importante do que os acupunturistas gostariam.

Mais recentemente, foi publicada uma “revisão de literatura das revisões de literatura” na prestigiada revista internacional Pain que investigou a eficácia e os efeitos adversos da acupuntura, documentados em 57 revisões sistemáticas publicadas nas principais bases de dados médicas durante o período de 2000 e 2009, abrangendo publicações advindas de vários países como a China, Coréia, Japão, Canadá, Espanha, Suécia, Reino Unido e os Estados Unidos (Ernst, Lee e Choi, 2011).

Os resultados apontados por essas revisões são repletos de contradições e inconsistências entre si: além da maior parte das revisões terem uma série de problemas metodológicos que comprometem a validade de suas conclusões e das mesmas apresentaram poucos detalhes, o único tratamento que obteve efeitos positivos unânimes para mais de uma das revisões sistemáticas de alta qualidade foi o de dores no pescoço, sendo que todos os outros tiveram resultados contraditórios e inconsistentes – alguns encontravam efeito significativo, outros não, outros encontravam efeitos relativos.

Além disso, 95 casos de efeitos adversos foram identificados, entre eles infecções, traumas em órgãos, 5 mortes e outros efeitos adversos (para mais detalhes basta dar uma olhada no artigo). A conclusão dos autores é que poucas evidências realmente convincentes foram encontradas na análise das revisões de literatura e que a “acupuntura continua associada com sérios efeitos adversos” (Ernst, Lee e Choi, 2011). Os autores também recomendam que os acupunturistas sejam adequadamente treinados na técnica para que seja diminuido o número de efeitos adversos identificados no estudo.

Segundo outros autores, também citados nesse estudo, os efeitos obtidos na acupuntura podem ser atribuídos à exibição de convicção por parte do acupunturista, ao entusiasmo do paciente ou à crença do paciente de que está recebendo um tratamento que vai ajudá-lo (Cherkin et al., 2009).

É claro que qualquer cliente desse tipo de terapia poderá ficar bravo ao ouvir que o tratamento pelo qual passou não tem efeito que o diferencie do esperado pelo efeito placebo. Não é a toa, visto que uma rápida busca que fiz no google indica que uma única sessão de acupuntura pode variar de 25 a 300 reais, e ninguém gostaria de passar o papel de bobo ou de ter comprado gato por lebre.

Seria muito bacana se descobrissemos que agulhadas no corpo realmente podem aliviar a dor, substituindo tratamentos tradicionais baseados em medicamentos pesados por procedimentos muito menos danosos e caros. Entretanto, até o momento os estudos que avaliaram a eficácia da acupuntura ainda são muito ambíguos e indicam que o tratamento ainda merece muito ceticismo e investigação sistemática. Se um dia a acupuntura se provar eficaz através de investigações empíricas controladas, ela deixara de ser uma ‘terapia alternativa” e vai se tornar tratamento médico. Até lá, não sabemos – pode ser tão eficaz quanto um remédio homeopático ou quanto à simples passagem de tempo.

 

Referências:

Cherkin, D., Sherman, K., Avins, A., Erro, J., Ichikawa, L., Barlow, W., Delaney, K., Hawkes, R., Hamilton, L., Pressman, A., Khalsa, P., & Deyo, R. (2009). A Randomized Trial Comparing Acupuncture, Simulated Acupuncture, and Usual Care for Chronic Low Back Pain Archives of Internal Medicine, 169 (9), 858-866 DOI:10.1001/archinternmed.2009.65

Enblom, A., Lekander, M., Hammar, M., Johnsson, A., Onelöv, E., Ingvar, M., Steineck, G., & Börjeson, S. (2011). Getting the Grip on Nonspecific Treatment Effects: Emesis in Patients Randomized to Acupuncture or Sham Compared to Patients Receiving Standard Care PLoS ONE, 6 (3) DOI: 10.1371/journal.pone.0014766

Ernst, E., Lee, M., & Choi, T. (2011). Acupuncture: Does it alleviate pain and are there serious risks? A review of reviews PAIN, 152 (4), 755-764 DOI:10.1016/j.pain.2010.11.004

Ernst, E., & Adrian, W. (2001). Acupuntura: uma avaliação científica. São Paulo: Manole.

 

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Source: Science Blog\SocialMente

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